segunda-feira, 5 de maio de 2014
...
Eu entendo que cada dia interessará menos
Cada dia fará menos sentido saber
Cada dia será melhor se afastar um pouco mais
Eu entendo
Eu entendo que acabou
Eu entendo que não tem volta
Que na verdade o amor morreu
Ou talvez ainda esteja agonizando
Dando seus últimos suspiros
Renascendo a uma lágrima
E morrendo a cada lembrança mais recente
Entre a vida e a morte
Mas o seu destino já é certo
O fim já está traçadosábado, 3 de maio de 2014
Visão
Independente do tamanho da dor que outrem lhe causou
Olhe para si
Tente perceber os motivos de tais sentimentos
E antes de apontar-lhes os dedos
Ponha a mão na consciência
E olhe-se frente ao espelho
Se desnude
Não tenha receio
Isso é algo entre você e sua alma
Ninguém haverá de lhe ouvir
Não há o que esconder
Não se esconda
Para que o crescimento e o amadurecimento
Se faça em sua plenitude
E de forma verdadeira
Olhe para si
Tente perceber os motivos de tais sentimentos
E antes de apontar-lhes os dedos
Ponha a mão na consciência
E olhe-se frente ao espelho
Se desnude
Não tenha receio
Isso é algo entre você e sua alma
Ninguém haverá de lhe ouvir
Não há o que esconder
Não se esconda
Para que o crescimento e o amadurecimento
Se faça em sua plenitude
E de forma verdadeira
Me escute menina ...
Ei, você aí, menina do vestido de chita rodado, flor nos cabelos, do anel de lua e estrela, que dança de pés no chão sentindo o orvalho da manhã beijar a grama do jardim. Aqui sou eu, sou você, somos nós, a mulher da saia lápis, dos cabelos recentemente moldados em cachos, do anel de lua e estrela, que caminha metodicamente pé ante pé em saltos agulhas que é pra tocar cada vez menos o chão da realidade. Eu só queria dizer que você vai mudar, o mundo vai mudar e as perspectivas vão mudar. Na verdade, as prioridades se invertem, e aquilo que antes era demasiadamente excruciante, hoje não faz nem cosquinha na alma da gente. Eu, você, as pessoas, os sentimentos, as situações, tudo está em constante mudança, e quando a gente é adolescente tudo parece mais rápido e abstrato do que realmente é. Quisera eu saber disso antes dos passos caminhados. Será preciso cair, levantar, tropeçar, escorregar, cair de novo, tentar mais uma vez e quantas forem necessárias para saciar aquilo que se costuma chamar viver. Terá anseio, receio, atino, desatino, terá bolo, haverá tempo. Ainda há, só que o carnaval dos hormônios joviais está agora fantasiado de experiência. O medo não deixa de ser medo, a ansiedade ainda se chama ansiedade. A abordagem que é agora é outra. E a travessia também.
Se eu pudesse dar um conselho a você, pequena menina confusa, perdida, do olhar cheio de resquícios daquilo que ela cuidadosamente chamaria de solidão, seria: respire. O mundo de fato não espera por você, mas você, sim, deve esperar pelo mundo. As coisas chegam prontas no momento exato em que são precisas, e não exatamente quando você quer. Nem toda dor é a maior do mundo e fatalmente tudo passa, mesmo quando o coração parece querer sair pela boca e retumbar por si só o tamanho daquela saudade. Não sofra antecipadamente. As pessoas, as situações, os sentimentos, nunca estão terminados. Dê espaço para algumas reticências, vírgulas e saiba entender um ponto final de coração tranquilo. Respire. Se quiser ir, vá. Nada no mundo é pior do que perder uma oportunidade que poderia mudar o rumo de tudo. O sentimento ainda estará lá quando você acordar, mas esfriar a cabeça antes de bater o pé impulsivamente aumenta em 90% as chances de uma escolha acertada ou, pelo menos, de um erro fundamentalmente coerente. Sim, errar conscientemente faz parte do processo, afinal de contas, foi graças a tantos tombos afobados e tropeços que mais pareciam quedas de abismos que hoje você é a mulher que se orgulha de ser. De nada adianta essa ansiedade e essa sede incontrolável de prever o amanhã, o depois, os próximos minutos. Tudo pode mudar no infinito de um segundo. O que me leva a outra questão: responda a mensagem, atenda ao telefone, chame pra sair, diga que ama, que odeia, que sente, que precisa, diga qualquer coisa, para depois não se arrepender do seu silêncio. Respire. Comemore as vitórias, mesmo que sejam pequenas e delicadas. E, acredite, as pessoas que se importam permanecem, apesar de. Simples assim.
Hoje, refletidos no espelho da janela, as ruguinhas e o metabolismo não mais tão acelerado me abraçam delicadamente, na lembrança de que o tempo inevitavelmente passou. Mas aquele sorriso bom de quem carrega na bagagem pessoas, olhares, abraços, finais, recomeços e 35 anos de saudades muito bem vividas, esse permaneceu. Se eu tivesse a oportunidade de transmitir a você, essa minha versão imatura e inexperiente de alguns bons anos atrás, todas essas delicadezas que o tempo me ensinou, eu simplesmente me calaria. Saber mais sobre a vida, os caminhos, as escolhas, de fato me pouparia uma dose considerável de tempo e dor de cabeça. Contudo, tiraria de mim e de você a magia da metamorfose, o sentido de agora estar aqui respirando: viver. Meu conselho para essa lagarta adolescente em mutação dentro de cada um: desabroche borboleta e deixe suas próprias asas descobrirem o caminho tortuoso para o lado de fora. Desabroche e deixe suas frágeis asinhas te ensinarem a voar. Menina do vestido rodado e do anel de lua e estrela, faça tudo novo e de novo. Eu estou tirando os saltos e sentindo os beijos do universo numa dança que pode durar a vida inteira. Porque no fim, o que fica é o quanto aquilo nos fez sentir. E só.
Erros repetidos
Quem nunca se viu em uma reprise mal escrita da novela mexicana amorosa que protagonizou no último verão?! Tudo parece se repetir tal e qual a última lembrança com exceção dos atores principais. Você é a mesma pessoa, já o outro é uma cópia mascarada daquele (a) que teria sido o culpado pelos caquinhos do seu coração partido, os quilos de chocolate ingeridos na noite de domingo e a chuva de lágrimas no colo do seu melhor amigo. Daí a gente culpa o karma, Murphy, o universo, o “dedo podre”, o bendito dia que resolveu ir à balada ou aquele seu amigo que te colocou em mais uma cilada, quando na verdade deveria se olhar no espelho e apontar um dedo bem grande para o próprio nariz. A responsabilidade pelo cinema vazio em pleno dia de estreia deste romance é exclusivamente sua.
O déjà-vú amoroso é mais comum do que se imagina. Quando se percebe, estamos nos relacionando com os mesmos tipos de pessoas, com comportamentos semelhantes e carências internas similares. Em grande parte das vezes pessoas indisponíveis para relacionamentos, logo, com um potencial enorme de transformar um sentimento bonito em desgosto. Não demora muito, a sensação de já ter passado por aquela estrada, de ter desviado daquele obstáculo ou já ter chorado aquela dor aparece nítida no bolo repentino de sábado à noite. Daí a gente reclama, esbraveja, generaliza todas as intenções do universo e se pergunta mais uma vez porque sempre se relaciona com as pessoas “erradas”, quando na verdade a justificativa para isso tudo vem lá de dentro da gente. Perspectiva e realidade são duas vertentes difíceis de serem separadas e compreendidas. Assim como renúncia e desapego. O fator comum entre todas: a carência. Se nossas mágoas e frustrações passadas não estiverem bem resolvidas dentro do nosso presente, a tendência é que os mesmos caminhos sejam percorridos em uma tentativa inútil de equilibrar a vivência e claro, preencher nossas expectativas.
Essa busca desenfreada por alvos impossíveis e a contínua insistência em relacionamentos frustrados é o reflexo claro das nossas fragilidades. Um conjunto de ressentimentos, dores, mágoas e um monte de sentimento mal resolvido que acaba se materializando em uma procura desgastante de algo que na verdade ficou perdido no passado. O ego ferido é o principal vilão dessa história toda, porque é fruto de uma perda que não foi bem processada pelo coração da gente e que motiva de certa forma esta autoflagelação. A mente precisa repor uma estima que foi negligenciada e canaliza esse descaso que não foi bem assimilado em cima de pessoas que não estão disponíveis emocionalmente. Às vezes até estão, mas não são capazes de suprir a demanda emocional pesada que o coração está exigindo. Quase como uma compensação, como se a gente precisasse provar pra gente mesmo que é capaz de conseguir aquilo que “acha” que deseja. Então, começa a investir no cara que tem namorada, na menina que está de mudança para o outro lado do globo e em fulano que ainda gosta da ex. O resultado disso é dor e sofrimento sendo continuamente alimentados por uma urgência pessoal e intransferível: nossas carências.
Não adianta bradar ao mundo que deseja um relacionamento feliz e saudável se continuar mergulhando de cabeça nos mesmos papos furados de sempre. Concordo que amor não se escolhe. Mas uma coisa que a maturidade ensina é que cair no mesmo buraco duas vezes é burrice. Bem como diz o ditado do gato escaldado. A gente sente quando uma história é duvidosa e não é recíproca. O apito do coração aciona na hora o alarme de “mantenha distância”. Acontece que a gente ignora os sinais do outro, do universo e do nosso próprio subconsciente que deveriam nos privar de mais uma decepção amorosa e simplesmente negligencia aquilo que existe de mais importante: nosso amor próprio. A consequência drástica disso é um círculo vicioso de relações negativas que de nada acrescentam à nossa vivência ou, melhor dizendo, que apenas minimizam as chances de um encontro integralmente real.
É preciso aprender a viver todas as dores no momento exato em que elas acontecem. Deixar doer o que tiver que doer, refletir de cabeça fria em cima daquele sentimento para só então seguir adiante de cabeça erguida e coração tranquilo. Sem remorsos, sem frustrações, sem rancor ou meias verdades. Dedo podre e relacionamento unilateral só existem pra quem não está em paz consigo, suas convicções e suas vulnerabilidades. Transformar fragilidades em experiências ao invés de reprises. Parcerias de bases sólidas só se firmam quando existem dois inteiros. Afinal, quem gosta de migalha é formiga e ainda arrisco dizer que pelo menos as da minha casa andam bastante exigentes.
Casamento
Difícil mesmo é sambar a dois. Afinar o ritmo, o compasso, o contratempo daquela melodia que se espera ser dançada pela vida inteira. Ainda mais complicado é definir quem tirar pra dançar. Ela vai ser seu primeiro sorriso pela manhã e seu último olhar de doçura antes de dormir. É com ela que você vai dividir os dias, os anseios, receios, as vitórias, derrotas e bem possivelmente, num futuro próximo, os genes. Dela, serão seus cafés da manhã regados a iogurte com cereais e pão francês, como também as viagens de fim de semana para um lugar aconchegante qualquer. As mãos dela serão o alicerce rumo a mais uma etapa sensacional na sua vida: o felizes para sempre (ou pela breve infinidade do sentimento). Mais do que sua parceira, ela precisa ser a sua melhor escolha. Mais do que companhia, ela precisa ser conforto, morada e paz, pra vida e para o coração.
Por isso, case-se com alguém que seja a sua maior torcida no futebol de sábado, no trabalho, na vida. Que vista a camisa do time, calce as chuteiras, entre no jogo ou simplesmente esteja preparada para recebê-lo no vestiário com o beijo mais acolhedor do mundo depois daquele cartão vermelho. Alguém que entenda o quão sagrada e preciosa é aquela cerveja com os amigos e o videogame de domingo a tarde. Uma pessoa que saiba cuidar e que ao mesmo tempo entende que regar demais a flor também maltrata o jardim.
Case-se com alguém que saiba dizer não, porque o respeito à individualidade e ao livre arbítrio do outro é o lençol que cobre a cama de sorrisos todas as noites antes de dormir. Que seja serenidade e calor nas manhãs de domingo. Que seja saudade e desassossego no momento da mais absoluta ausência.
Escolha uma mulher que saiba sorrir com você, de você e para você. Que aponte o caminho mais do que o erro e seja bússola quando faltar o norte. Eleja para o resto da vida aquela dotada da mais ardente coragem, seja para abandonar certas travessias, hábitos, rotinas, seja para peregrinar cada vez mais fundo em cada uma delas.
Opte por uma companheira que saiba reconhecer sua tentativa desastrada de cozinhar durante a crise de TPM dela e que seja disposta a eventualmente te acompanhar nos seus desatinos em série, como aquela corrida de kart com os amigos ou aquela trilha na montanha.
Case-se com alguém que diga sim não só ao que você tem de melhor, mas que saiba amar cada metade torta das suas falhas e defeitos (incluindo sua mania recorrente de deixar a toalha molhada em cima da cama). Escolha alguém que esteja inteiramente com você “apesar de”, porque fácil mesmo é se enlaçar por um olhar, um sorriso, um corpo escultural – o difícil é entender que em todo paraíso existe um pouco de tormenta. O que me leva a um ponto de suma importância: case-se com alguém que saiba ceder a uma discussão no momento certo. No amor vence quem sabe perder. Perder o orgulho, a vez, a discussão delimita a batalha de uma guerra em que os dois saem ganhando. Escolha alguém que não desista de você.
Abrace para o resto da vida a menina bailarina que exime o parceiro da liderança da valsa. Que se dispõe a guiar junto com você essa dança louca que é o amor, de pés no chão pra sentir a vibração do palco, o calor da plateia e as mãos bem dadas fluindo no tom da canção.
E talvez as palavras mais sinceras que eu poderia dizer seriam, case-se com a sua melhor amiga, a parceria das suas risadas mais gostosas. No fim de tudo, quando faltarem forças, palavras, a barba branquear, o cabelo ralear, quando a imagem do espelho não for mais a mesma, é a amizade que vai importar, que vai sustentar o edifício quando a estrutura do concreto esmorecer. É o quanto vocês conseguem dizer um para o outro muitas vezes sem se tocar, apenas ali no silêncio de um olhar, que vai garantir a solidez dos próximos capítulos desse livro.
Acontece que amor não tem pré-requisito, carta marcada, currículo e muito menos se fundamenta em uma lista de características. Minimizar os pontos de crise é bom e evita um bocado de dor de cabeça, mas se a pessoa que você escolher passar o resto da vida não apresentar o mínimo daquilo que você procura, que exista carinho suficiente para cativar e ser cativado. Fundamental mesmo é o amor. Então se case com a mulher que preencher de permanência seu coração. Determinadas clarezas só a alma da gente é capaz de dizer.
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